Cirurgia bariátrica e metabólica: quais técnicas o CFM reconhece hoje (Resolução 2.429/2025)

Atualizado: há 6 dias
Dr. Igor Benevides — MÉDICO · CRM-BA 20218 · RQE 28056 — Cirurgia Geral
Convênios e atendimento particular · Clínica Baros — Centro Médico do Hospital da Bahia, Pituba — Salvador/BA · Atendimento com hora marcada
Em resumo
A Resolução CFM nº 2.429/2025 (publicada em 20/05/2025) é a norma que define, hoje, quais cirurgias bariátricas e metabólicas são reconhecidas no Brasil. Ela substituiu as resoluções de 2015 e 2017.
Altamente recomendadas (maior evidência científica): bypass gástrico em Y de Roux e gastrectomia vertical (sleeve).
Alternativas reconhecidas, usadas principalmente em cirurgia de revisão: duodenal switch com gastrectomia vertical, bypass gástrico com anastomose única, gastrectomia vertical com anastomose duodeno-ileal (SADI-S) e gastrectomia vertical com bipartição do trânsito intestinal.
Não recomendadas: banda gástrica ajustável e cirurgia de Scopinaro. Endoscópicos reconhecidos: balão intragástrico e gastroplastia endoscópica.
A novidade mais importante não é uma técnica nova: é a ampliação das indicações (IMC 30–35 com doenças específicas, sem limite de idade ou de tempo de diabetes) e a exigência de equipe multidisciplinar completa.
Atendo pelos convênios Bradesco Saúde, SulAmérica, Amil, Mediservice, Saúde Caixa, AMS Petrobras e Assefaz, além de consulta particular. A cobertura do procedimento depende de autorização do plano.
Se você pesquisou “o CFM liberou uma nova cirurgia bariátrica?”, a resposta direta é: não existe uma técnica inédita autorizada em 2025. O que o Conselho Federal de Medicina fez foi reunir numa única resolução as regras da cirurgia bariátrica e da cirurgia metabólica (para diabetes tipo 2), listar com clareza quais operações são reconhecidas, tirar da lista duas que deram maus resultados e ampliar quem pode ser operado.
Neste texto explico, em linguagem de paciente, cada técnica que a resolução reconhece, para quem ela costuma ser indicada, o que a norma deixou de recomendar e — ponto que gera muita confusão — por que os critérios do CFM e os do plano de saúde não são iguais.
O que mudou com a Resolução CFM nº 2.429/2025
Resposta curta: ela unificou as regras da bariátrica (Res. 2.131/2015) e da cirurgia metabólica (Res. 2.172/2017), ampliou as indicações e publicou uma lista atualizada de técnicas reconhecidas.
IMC 30 a 35 passou a ter indicação quando há diabetes tipo 2, doença cardiovascular grave com lesão de órgão-alvo, doença renal crônica precoce do diabetes, apneia do sono grave, doença hepática gordurosa com fibrose, refluxo com indicação cirúrgica, osteoartrose grave ou doença com indicação de transplante.
Caiu o limite de idade e o tempo máximo de diabetes. A regra antiga exigia, para a cirurgia metabólica, paciente entre 30 e 70 anos, com até 10 anos de diabetes e 2 anos de acompanhamento com endocrinologista. Isso deixou de existir.
Adolescentes a partir de 16 anos entram nos mesmos critérios dos adultos, com decisão compartilhada com a família. Entre 14 e 16 anos, só em casos excepcionais (IMC acima de 40 com complicação que ameace a vida).
Equipe mínima cumulativa: além do cirurgião, endocrinologista (ou clínico), cardiologista, psiquiatra, nutrólogo, nutricionista e psicólogo.
Hospital de grande porte, com UTI e plantonista 24 horas. Para IMC acima de 60, o hospital precisa comprovar estrutura física adequada.
Lista de técnicas dividida em altamente recomendadas, alternativas, não recomendadas e endoscópicas — é o que detalho a seguir.
Bypass gástrico em Y de Roux
Resposta curta: é a técnica com a maior base científica no mundo. Cria-se uma pequena bolsa de estômago e desvia-se parte do intestino; reduz o quanto se come e muda hormônios que controlam fome e açúcar no sangue.

No bypass, o cirurgião separa uma bolsa pequena na parte alta do estômago e a conecta diretamente a uma alça do intestino delgado (a alça alimentar). O restante do estômago e o duodeno continuam no corpo, produzindo sucos digestivos que se juntam ao alimento mais adiante, na junção em Y — daí o nome. Tudo é feito por videolaparoscopia, por pequenas incisões.
É frequentemente a técnica preferida quando há diabetes tipo 2 ou refluxo gastroesofágico importante, porque a bolsa pequena e o desvio tendem a aliviar o refluxo e a ter forte efeito metabólico. O preço dessa anatomia é a necessidade de reposição de vitaminas e minerais pelo resto da vida e a atenção a complicações tardias, como úlcera na emenda e hérnia interna.
Gastrectomia vertical (sleeve)
Resposta curta: retira-se cerca de três quartos a quatro quintos do estômago, deixando um tubo estreito. Não há desvio de intestino. É uma das técnicas mais realizadas no mundo.

O sleeve reduz o volume do estômago e remove a região que produz boa parte da grelina, o hormônio da fome. Por manter o trânsito intestinal normal, costuma ter menos deficiências nutricionais do que as técnicas com desvio e é tecnicamente mais simples. A operação não é reversível — o estômago retirado não volta.
O principal ponto de atenção é o refluxo gastroesofágico: o sleeve pode piorar um refluxo que já existe ou fazê-lo aparecer. Por isso, quem tem refluxo importante ou hérnia de hiato grande precisa de avaliação cuidadosa antes de escolher essa técnica — e, em alguns casos, o bypass é a opção mais adequada.
Técnicas alternativas reconhecidas (principalmente para cirurgia de revisão)
Resposta curta: a resolução reconhece quatro técnicas adicionais, mas com uma condição explícita — o paciente precisa ser informado de que ainda faltam evidências sólidas de longo prazo quando usadas como primeira cirurgia, e a decisão precisa ter aprovação da equipe multidisciplinar.
Na prática, essas técnicas entram sobretudo quando uma cirurgia anterior não deu o resultado esperado (cirurgia revisional) ou em situações específicas avaliadas caso a caso. A responsabilidade pela escolha é do cirurgião assistente, em decisão compartilhada com o paciente.
Bypass gástrico com anastomose única (OAGB, “mini bypass”)

Parecido com o bypass em Y, mas com uma bolsa gástrica mais longa e apenas uma emenda entre estômago e intestino, o que simplifica a operação. A contrapartida é o contato da bile com a bolsa gástrica, com risco de refluxo biliar — por isso não costuma ser escolhido para quem já tem refluxo.
Gastrectomia vertical com anastomose duodeno-ileal (SADI-S)

É um sleeve ao qual se acrescenta um desvio intestinal com uma única emenda entre o duodeno e a parte final do intestino delgado. Tem efeito metabólico potente e é usado com frequência como segunda etapa quando um sleeve prévio perdeu efeito. Exige acompanhamento nutricional rigoroso, porque o desvio é mais extenso.
Duodenal switch com gastrectomia vertical

A versão com duas emendas do desvio duodenal. É a técnica reconhecida com maior componente disabsortivo, reservada a casos selecionados — em geral obesidade muito grave ou revisão — porque o risco de deficiências de proteínas, vitaminas e minerais é o mais alto entre as técnicas listadas.
Gastrectomia vertical com bipartição do trânsito intestinal
Técnica desenvolvida no Brasil: ao sleeve soma-se uma emenda entre o estômago e o intestino delgado distal, sem excluir o duodeno, de modo que o alimento segue por dois caminhos. A proposta é obter efeito metabólico com menos disabsorção. Como as demais alternativas, depende de indicação criteriosa e de consentimento informado sobre o nível de evidência.
Procedimentos endoscópicos reconhecidos
Resposta curta: o CFM reconhece o balão intragástrico e a gastroplastia endoscópica. São procedimentos sem cortes, feitos pela boca, com efeito menor e mais temporário do que a cirurgia.
Balão intragástrico: um balão de silicone é colocado no estômago por endoscopia e retirado meses depois. A resolução o indica para quem tem restrição à cirurgia ou como preparo pré-operatório (perder peso antes de uma operação de maior porte).
Gastroplastia endoscópica (plicatura gástrica endoscópica e similares): o estômago é costurado por dentro, reduzindo seu volume sem retirar nada. A norma permite associá-la a tratamento com medicamentos.
Esses procedimentos são realizados por médicos endoscopistas — quando há indicação, faço o encaminhamento. Cito-os aqui porque fazem parte da lista oficial e porque pacientes perguntam com frequência se “o balão” substitui a cirurgia. Em geral, não substitui: o efeito tende a diminuir após a retirada.
O que o CFM deixou de recomendar
Resposta curta: a banda gástrica ajustável e a cirurgia de Scopinaro saíram da lista por “percentual proibitivo de complicações graves” e resultados insatisfatórios.
A banda gástrica — um anel de silicone ajustável em volta do estômago, muito feita nos anos 2000 — tinha alta taxa de deslizamento, erosão e reganho de peso. A cirurgia de Scopinaro (derivação biliopancreática clássica) causava disabsorção excessiva, com desnutrição e deficiências graves. A resolução é explícita: quem já foi operado por essas técnicas deve ser acolhido e acompanhado, não abandonado. Se esse é o seu caso, a avaliação serve justamente para decidir se há necessidade de conversão para outra técnica.
Quem tem indicação — e quem não tem
Resposta curta: a cirurgia é indicada após falha do tratamento clínico, de acordo com o IMC e as doenças associadas. Ela não é cura da obesidade, que é uma doença crônica, e sim parte de um tratamento que continua pela vida toda.
IMC igual ou superior a 40: indicação independe de outras doenças.
IMC entre 35 e 40: com pelo menos uma doença agravada pela obesidade que melhore com a perda de peso.
IMC entre 30 e 35: apenas com as condições específicas listadas acima (diabetes tipo 2, apneia grave, doença hepática gordurosa com fibrose, entre outras).
IMC acima de 60: exige avaliação prévia da estrutura do hospital e do preparo da equipe.
Quando NÃO operar: obesidade que ainda responde ao tratamento clínico; uso de drogas ilícitas não tratado; gestação; e incapacidade de seguir as orientações pós-operatórias e o acompanhamento de longo prazo. Deficiência cognitiva não é contraindicação absoluta e exige avaliação individual. Atendo apenas adultos.
Equipe e hospital: o que a norma exige
Resposta curta: além do cirurgião, uma equipe mínima de seis profissionais e um hospital de grande porte com UTI.
A equipe multidisciplinar exigida — endocrinologista ou clínico, cardiologista, psiquiatra, nutrólogo, nutricionista e psicólogo — participa do preparo, da decisão sobre a técnica e do acompanhamento. O anestesiologista é membro essencial da equipe cirúrgica. O cirurgião (ou ao menos um membro da equipe) precisa ter Registro de Qualificação de Especialidade em cirurgia geral ou do aparelho digestivo, preferencialmente com área de atuação em cirurgia bariátrica. Sou cirurgião geral com RQE 28056 e realizo cirurgia bariátrica por videolaparoscopia dentro de equipe multidisciplinar.
Como a técnica é escolhida
Resposta curta: pela necessidade do paciente, não pela preferência por uma operação. A escolha é compartilhada entre equipe e paciente, que precisa entender o tipo de cirurgia, os efeitos colaterais, as complicações possíveis e se há ou não reversão.
Na consulta, os fatores que mais pesam são: presença de diabetes tipo 2 e de refluxo (favorecem o bypass), uso crônico de anti-inflamatórios e cirurgias abdominais prévias (pesam contra o bypass), preferência por evitar desvio intestinal (favorece o sleeve), IMC muito elevado e histórico de cirurgia anterior. A resolução lembra que nenhuma técnica tem 100% de sucesso, e que pode haver reganho de peso ou retorno de doenças metabólicas — por isso o acompanhamento é parte do tratamento, não um detalhe.
Riscos e sinais de alarme
Resposta curta: toda cirurgia bariátrica tem riscos — sangramento, fístula (vazamento na linha de grampos ou na emenda), trombose, infecção e, a longo prazo, deficiências nutricionais. São riscos baixos em equipes experientes, mas não são zero.
Procure emergência imediatamente se, nas primeiras semanas após a operação, houver: batimento cardíaco acelerado e persistente (acima de 120 por minuto), febre, dor abdominal intensa ou dor no ombro esquerdo, falta de ar, vômitos que não param ou incapacidade de ingerir líquidos. Esses sinais podem indicar fístula ou trombose e exigem avaliação no mesmo dia.
O plano de saúde cobre? CFM e ANS não dizem a mesma coisa
Resposta curta: o CFM define o que é boa prática médica; a ANS define o que o plano é obrigado a cobrir. As duas regras ainda não estão alinhadas.
A Diretriz de Utilização do Rol da ANS para a cirurgia bariátrica continua exigindo, na sua redação vigente, IMC mínimo de 35 com comorbidade (ou 40 sem), falha de tratamento clínico por pelo menos 2 anos e outros critérios que a resolução do CFM não exige mais. Isso significa que um paciente com IMC 32 e diabetes tipo 2 pode ter indicação médica pela norma do CFM e, ainda assim, receber negativa do plano.
Com a Lei 14.454/2022, o rol da ANS passou a ser exemplificativo: há caminhos para cobertura fora da lista quando existe comprovação científica e recomendação de órgão técnico, mas isso costuma depender de pedido fundamentado e, às vezes, de discussão administrativa ou judicial. Não sou advogado; o que posso fazer é produzir o relatório médico detalhado, com os critérios da Resolução 2.429/2025, para instruir o pedido.
Atendo pelos convênios Bradesco Saúde, SulAmérica, Amil, Mediservice, Saúde Caixa, AMS Petrobras e Assefaz, além de consulta particular. A cobertura do procedimento depende de autorização do plano.
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Perguntas frequentes
O CFM autorizou alguma cirurgia bariátrica nova em 2025?
Não. A Resolução 2.429/2025 organizou e atualizou a lista de técnicas reconhecidas, retirou a banda gástrica e a cirurgia de Scopinaro e ampliou as indicações. Nenhuma técnica inédita foi criada.
Qual é a melhor técnica: bypass ou sleeve?
Não existe “melhor” em abstrato. As duas são altamente recomendadas pelo CFM. O bypass tende a ser preferido quando há diabetes tipo 2 ou refluxo importante; o sleeve, quando se quer evitar o desvio intestinal e há menor risco de refluxo. A escolha é feita caso a caso, com a equipe.
Com IMC 32 e diabetes eu posso operar?
Pelos critérios do CFM, sim — desde que o tratamento clínico tenha falhado e a equipe multidisciplinar concorde. Pela regra atual da ANS, o plano pode negar a cobertura, o que exige pedido fundamentado. Na consulta avaliamos os dois cenários.
A cirurgia bariátrica é reversível?
O sleeve não é reversível, pois parte do estômago é removida. O bypass é tecnicamente reversível, mas a reversão é uma cirurgia de grande porte e raramente indicada. Pense na decisão como definitiva.
O balão intragástrico substitui a cirurgia?
Em geral, não. O CFM o reconhece para quem não pode operar ou como preparo antes da cirurgia. O efeito tende a diminuir depois da retirada do balão.
Fiz banda gástrica há anos. Preciso tirar?
Não necessariamente, mas precisa de avaliação. A resolução orienta que quem já foi operado por técnicas não recomendadas seja acompanhado. Se houver sintomas, reganho de peso ou complicação da banda, a conversão para sleeve ou bypass pode ser discutida.
Preciso de quantos profissionais antes de operar?
Além do cirurgião: endocrinologista ou clínico, cardiologista, psiquiatra, nutrólogo, nutricionista e psicólogo. A avaliação de cada um é obrigatória pela norma do CFM e costuma ser exigida também pelo plano de saúde.
Agende uma avaliação
Se você tem obesidade e quer saber se há indicação cirúrgica e qual técnica faz sentido para o seu caso, a consulta é o primeiro passo. Atendo na Clínica Baros — Centro Médico do Hospital da Bahia, em Salvador, com hora marcada. Atendimento particular e por convênio, conforme autorização do plano.
Fontes
Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.429/2025 — DOU de 20/05/2025, Seção 1, p. 170 (republicada em 21/05/2025). Texto integral em PDF.
Conselho Federal de Medicina. CFM atualiza regras para realização de cirurgia bariátrica e metabólica — notícia oficial, maio de 2025.
Agência Nacional de Saúde Suplementar. Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde — Diretrizes de Utilização (gastroplastia).
Brasil. Lei nº 14.454, de 21 de setembro de 2022 — rol exemplificativo.
Felsenreich DM, Langer FB, Eichelter J, et al. Bariatric Surgery — How Much Malabsorption Do We Need? A Review of Various Limb Lengths in Different Gastric Bypass Procedures. J Clin Med. 2021;10(4):674. Licença CC BY 4.0 — fonte das ilustrações de bypass, OAGB, SADI-S e duodenal switch.
Tish S, Corcelles R. The Art of Sleeve Gastrectomy. J Clin Med. 2024;13(7):1954. Licença CC BY — fonte da ilustração do sleeve.
Dr. Igor Benevides — MÉDICO · CRM-BA 20218 · RQE 28056 — Cirurgia Geral
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. As indicações descritas seguem a Resolução CFM nº 2.429/2025 e devem ser avaliadas individualmente. Publicação em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023.



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